segunda-feira, 19 de abril de 2010

Lésbicas e Aborto: Qual nossa relação com a questão?

Lésbicas e Aborto: Qual nossa relação com a questão? Por que lesbianas deveriam lutar pelo direito de aborto, direitos reprodutivos? A lesbiana não é concebida justamente como a mulher que radicalmente se opôs à subordinação ao homem, à maternidade e até mesmo à própria categoria mulher?


Podemos começar pensando na noção das feministas de “Heterossexualidade Compulsória”, que designa a presunção da heterossexualidade como hegemonia ideológica no Patriarcado. Frequentemente imaginamos que estamos livres em nossas vidas pessoais como lésbicas, até a hora em que o sistema todo que nos hostiliza diariamente bate à nossa porta. Não estamos nós lesbianas livres do sistema de reprodução, por mais que sejamos lésbicas individualmente ou em nossa comunidade. As pressões para a heterossexualidade permanecem, nos forçando a exercer seus paradigmas no âmbito cultural, nas nossas camas, na linguagem e nos comportamentos que reproduzem os binários hierárquicos e rígidos de gêneros homem-mulher, reproduzindo os sistemas de valores supremacistas masculinos e hetero-patriarcais. Para além disso, as forças dessa mesma Heterossexualidade Compulsória agem por meios institucionais e por violências invisíveis: exclusão social, demissões de lésbicas e homossexuais, restrição de campos de trabalho públicos a transexuais, a propagação de uma idéia de bissexualidade como destino de toda sexualidade lésbica, expressa como uma inadaptação patológica ou temporária ao modelo falocêntrico de sexualidade que se presume ser o correto e natural. Nos sistemas de Saúde, vemos a predominância de uma concepção de saúde da Mulher focada em Direitos Sexuais e Reprodutivos, que visa fiscalização de suas funções como reprodutora e mãe, além de regular o acesso sexual de homens a mulheres, ‘curando’ seus problemas de frigidez, suas dificuldades sexuais e doenças geradas pelo modelo de sexualidade falocêntrico que apenas favorece o homem. Toda ginecologia veio sendo exercida para regular as falhas da prática sexual centrada no intercurso, simbologia importante ao patriarcado por significar apaziguamento e união das classes sexuais que vivem em desigualdade.

Segundo o documento Dossiê da Saúde da Mulher Lésbica, da Rede Feminista de Saúde, lésbicas também estão correndo risco de exposição à gravidez. De acordo com o relatório, apenas 23,4% das mulheres lésbicas tiveram sexo exclusivamente com mulheres em suas vidas e 36,6% relatam parceiros sexuais masculinos nos últimos 3 anos. Na revista virtual XXY, em 2009, foi veiculada a notícia de que lésbicas possuem maior probabilidade de engravidar em relação à suas colegas heterossexuais, que fazem uso de proteções. Isso pode ser lido de muitas formas; uma delas é a de que a identidade lésbica não se resume à prática sexual, mas a toda uma construção pessoal em relação com as instituições e mundo que nos cerca. A invisibilidade lésbica veio sendo a forma mais efetiva do Patriarcado esconder nossas opções de rebeldia, e de invisibilizar lésbicas assim também escondendo de outras lésbicas a possibilidade de reconhecimento de si mesmas. Muitas mulheres vivem durante anos com homens antes de saberem-se lésbicas. A repressão da sexualidade das mulheres também cumpre um grande papel ao vetar a estas o autoconhecimento, já que sexualidade representa um lócus de resistência por estar ligado à vida e aos seus próprios desejos, que nem sempre convergem com os desejos dos projetos colocados para nós pelo capitalismo e expectativas de uma vida produtiva. Os encontros heterossexuais também são mais favorecidos que os encontros lésbicos, que são vividos tantas vezes de forma clandestina. Por questões de clandestinidade, exclusão, não-aceitação familiar, dificuldades de apoio social, estigmatização, preconceito e conflitos subjetivos derivados daí, não são também poucas as lésbicas que vivem com sentimentos de auto-ódio e baixa auto-estima, que detestam a si mesmas por gerarem ‘tantos problemas’ para si e os demais, e que desejam a todo custo se encaixar na vida heterossexual – se casando, fazendo terapias com profissionais irresponsáveis, se expondo a um ato sexual que não desejam ou usando isso como uma das diversas formas de auto-agressão.

Assim, nosso conceito de Saúde não abrange toda população, e aqui nem foi sequer falado das mulheres negras, índias, do campo e trabalhadoras. Não leva em conta a integralidade corpo-e-mente e ainda se calca num modelo biologista, que não enxerga tais dados como indicativos das condições em que vivemos socialmente. Não leva em conta todas as vicissitudes em que vivem as lesbianas, e as expõe ao desamparo assistencial. Não são raras as lesbianas que nunca foram a ginecologistas, outras que relatam experiências de discriminação com profissionais e as que pensam que “nunca vão precisar” de uma consulta ginecológica e que não pegam DSTs e AIDS. Essa idéia reproduz a idéia patriarcal de que a relação entre mulheres não existe, e que estas são um grupo seleto que nunca terá relações com homens.

A Lesbianidade não é uma questão genética para as feministas lésbicas, mas sim uma questão política e, mais além, uma questão ética. Escolher uma mulher para destinar suas energias emocionais e construir projeto de vida representa um sério risco ao Patriarcado hegemônico, e todas as formas de violência e exclusão que estas vivenciam devem ser compreendidas como perseguição a essa classe de mulheres que, como diz Monique Wittig, “tal qual os escravos americanos são fugitivas para tornarem-se livres”. São boicotes ao sistema Patriarcal e àqueles que de alguma forma deste se privilegiam – mesmo que secundariamente – para eliminar o reconhecimento de um movimento de não-conformidade. As lesbianas representam uma idéia perigosa. Precisamos entender os dados de Saúde das populações como expressões de insatisfação e de inadequação, e também como intentos de eliminação de pessoas que possam subverter a ordem hetero-fascista posta. Precisamos nós lesbianas parar de reproduzir o lugar tradicional da feminilidade vitimizada, não arriscada e silenciosa – quando o fazemos cedemos à progressiva invisibilização da nossa gente.

FONTES:
Dossiê Saúde das Mulheres Lésbicas, Rede Feminista de Saúde março de 2006, Belo Horizonte-MG.
WITTIG, Monique; Ninguém Nasce Mulher; The Straight Mind and Other Essays, 1992.
RICH, Adrienne; Compulsory Heterosexuality and Lesbian Existence, 1980. EUA.
CLARKE, Cheryl; Lesbianismo, um ato de resistência. IN Esta Puente, mi espalda – Voces de las tercermundistas en los Estados Unidos, MORAGA, Cherríe&Castillo, Ana;, ISM Press, São Francisco-USA, 1988.
CURIEL, Ochy; Pensando o Lesbianismo Feminista, entrevista com Ochy Curiel, Instituto Humanitas Unisinos, 2006.
Jeffreys, Sheila; Lesbian Heresy, Sinifex Express; Melborne-Australia; 1993.

texto escrito para a revista lésbica Visibiles, de Lima-PERU. Versão adaptada para o espanhol em http://issuu.com/visibles/docs/final_visibles2

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