terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Feminilidade, Heterossexualidade e a Síndrome de Estocolmo


Este texto propõe que a criação de vínculos das mulheres com homens, bem como a “feminilidade” e a heterossexualidade, são reações paradoxais às violências dos homens contra elas. Como já foi argumentado anteriormente em análises feministas, compreendemos que as mulheres sofrem coletivamente da Síndrome de Estocolmo – a criação de vínculos de um refém com seus captores – como resultado do seu medo constante de serem assediadas verbalmente, sexualmente e fisicamente, bem como restringidas economicamente pelos homens. Da mesma forma que captores que precisam matar ou ao menos ferir alguns reféns a fim de obter o que querem, os homens aterrorizam as mulheres para alcançarem o seu objetivo – a obtenção dos seus serviços sexuais, emocionais, domésticos e reprodutivos contínuos. Como reféns que se esforçam para acalmar seus captores a fim que de não sofram maiores violências e não sejam mortos, as mulheres se esforçam para agradar os homens, e dessa reação surge a “feminilidade”: a sua aparente subserviência, docilidade e auto-sacrifício. Dessa maneira, compreende-se que a feminilidade é um mecanismo adaptativo e um guia para as mulheres de como sobreviver aos abusos e ameaças dos homens, buscando conquistá-los. A teoria da Síndrome de Estocolmo Social aponta que esta se manifesta em todas as relações opressor-oprimido.

Embora essa análise seja emocionalmente perturbadora, ela pode proporcionar um melhor entendimento do mundo ao expor a relação entre fenômenos aparentemente díspares. Por exemplo, a teoria da Síndrome de Estocolmo pode explicar por que tantas mulheres rejeitam o próprio feminismo, que expõe os pontos de vista das mulheres e busca a libertação feminina; por que mulheres se esforçam tanto para se ligar aos homens quando seria muito mais fácil obter o que precisam de vínculos com outras mulheres; por que as mulheres amam os homens em face de sua violência contra nós.
A Síndrome de Estocolmo

Primeiramente, é importante ressaltar que, para que a Síndrome de Estocolmo seja desenvolvida, a vítima deve ter sua sobrevivência como seu objetivo principal.
Observando que a síndrome se desenvolve em um contexto de limitação da liberdade e desesperança, Soskis and Ochberg (1982) enfatizam que o objetivo do desenvolvimento da síndrome é criar esperança em uma situação onde, de outra forma, esta seria inexistente. Visto que o captor é a fonte dessa esperança, o refém sente-se grato a ele. Um consenso entre os especialistas é o de que o terror incutido no refém pelo captor cria sentimentos de absoluta dependência e desamparo nas vítimas.
A natureza aparentemente difundida desse fenômeno sugere que a criação de vínculo com o abusador (Síndrome de Estocolmo) é instintiva e desempenha uma função de sobrevivência para vítimas de abuso crônico.
A Síndrome de Estocolmo se desenvolve sob as seguintes condições:
1. A percepção de ameaça à sobrevivência da vítima, e a convicção de que o captor pode levar a ameaça a termo.
2. A percepção da impossibilidade de escapar.
3. A percepção por parte da vítima de alguma pequena gentileza do captor em um contexto de terror.
4. Isolamento de perspectivas que não as do captor.
Graham (1994) propôs estas quatro condições (percepção de ameaça à sobrevivência, gentileza, impossibilidade de escapar e isolamento) como precursoras da Síndrome de Estocolmo; um conjunto psicodinâmico para vítimas da síndrome; e sessenta e seis aspectos potenciais da Síndrome de Estocolmo, nove dos quais são vistos como indicadores-chave.
Vale notar que três dos quatro precursores da síndrome (a percepção de ameaça à sobrevivência, impossibilidade de escapar e gentileza) dizem respeito às percepções da vítima, e não às condições objetivas do ambiente em que ela se encontra.
Os seguintes indicadores-chave e distorções cognitivas se apresentam na Síndrome de Estocolmo como um contínuo em intensidades variáveis:
· A vítima apresenta sintomas traumáticos ou Síndrome do Stress Pós-Traumático.
· A vítima cria um vínculo com o captor.
· A vítima sente uma gratidão intensa por pequenas gentilezas demonstradas pelo captor.
· A vítima nega a violência e/ou as ameaças de violência do captor quando ocorrem, ou racionaliza a violência. A vítima nega sua raiva do captor a si própria, ao captor e a terceiros.
· A vítima demonstra hipersensibilidade às necessidades do captor e procura mantê-lo feliz (a fim de aumentar as chances do captor deixá-la viver). Para tal, a vítima tenta “entrar na mente” do captor.
· A vítima vê o mundo a partir da perspectiva do captor e vivencia sua identidade através dos olhos do captor.
· A vítima enxerga as autoridades (polícia tentando resgatá-la, por exemplo) como os “malvados”, e o captor como o “bonzinho”. Ela enxerga o captor como estando a protegê-la.
· A vítima tem dificuldades psicológicas em “deixar” o captor até mesmo depois de ser libertada.
· A vítima teme que o captor volte para “pegá-la” mesmo depois que ele tenha morrido ou esteja preso. Ela evita ter pensamentos desleais em relação ao captor temendo retaliação.
As distorções cognitivas desempenham três funções principais. Elas ajudam a evitar que a vítima seja dominada pelo terror, o que a tornaria incapaz de fazer o que é preciso para aumentar suas chances de sobreviver. A atribuição errônea de que a excitação e hipervigilância da vítima são devidas a amor e não terror cria um vínculo entre ela e seu abusador, bem como esperança para a vítima. Quando a vítima define a relação como uma de carinho, é fácil para o abusador fazer o mesmo. Obviamente, essas distorções cognitivas estão a serviço da sobrevivência: elas reduzem o terror, criam a esperança de escapar por via da conquista do abusador, e facilitam a criação de um vínculo entre o abusador e a vítima e, portanto, aumentam as chances de sobrevivência da vítima.
Devemos ressaltar que as pessoas que desenvolvem a síndrome não o fazem porque possuem um desvio de personalidade ou uma personalidade fraca, ou então porque foram abusadas anteriormente, ou porque foram socializadas dessa forma. A síndrome é uma reação universal a uma ameaça à sobrevivência sem perspectiva de libertação. Ademais, as vítimas com a síndrome não permanecem com o abusador porque criaram um vínculo com ele – pelo contrário, elas criam vínculo com o abusador porque não vêem nenhuma forma de escapar. Esse vínculo é particularmente provável de ser desenvolvido se a pessoa que proporciona o alívio emocional é o abusador, visto que “gentilezas” do abusador criam a esperança de que o abuso terminará.
Uma pessoa cuja sobrevivência está ameaçada percebe uma gentileza de forma diferente de uma pessoa cuja sobrevivência não está sob ameaça. Por exemplo, uma pequena gentileza – que não seria sequer percebida em condições de segurança – parece imensa sob condições de ameaça e/ou debilitação.
Com a percepção de gentileza e esperança, as vítimas negam quaisquer sentimentos de perigo, terror e raiva que o abusador cria nelas. Tal negação permite que a vítima crie um vínculo com o lado “positivo” do abusador.
As vítimas inconscientemente procuram ver o mundo da mesma forma que o abusador, pois apenas assim elas podem antecipar o que devem fazer para deixar o abusador feliz e para que ele seja “gentil” com elas.
As distorções cognitivas proporcionam para as vítimas uma interpretação acerca de seu próprio comportamento. O conteúdo das distorções traz um significado para as vítimas sobre seu comportamento, e as ajuda a acreditar que estão no controle.
Vários mecanismos também dificultam a separação psicológica do abusador após um período de cativeiro prolongado. Viver sem o abusador e, portanto, sem aquela consciência de si própria, impõe à vítima uma ameaça à sua sobrevivência psíquica. A perda de seu único “amigo” e da sua identidade como vista através dos olhos do abusador requer que a vítima se aventure pelo temível desconhecido, o que é difícil até mesmo para pessoas em ambientes normais. Isso é bem mais difícil para alguém cuja sobrevivência depende dos frágeis sentimentos de antecipação e “controle” produzidos por distorções cognitivas e os caprichos de um terrorista.
Os sentimentos da vítima de que o abusador pode retornar para “pegá-la” em algum momento, e de que dessa vez o abusador pode não ser tão bom (não deixá-la viver), também fazem com que a vítima se mantenha leal ao abusador por muito tempo depois que o cativeiro tenha terminado.
Visto que manter uma distorção cognitiva requer muito desgaste psicológico, o grande número de distorções utilizadas a fim de reduzir o terror não deve ser desconsiderado: esse número sugere que a redução do terror é muito importante para a sobrevivência e para lidar com abusos contínuos. Várias distorções também ajudam a vítima a acreditar que possui algum controle sobre o abuso.

A vítima com frequência racionaliza o abuso ao se culpar pelo ocorrido, acreditando que pode controlá-lo e também quando é abusada. Mas por que ela se culparia por seu abuso? Há pelo menos duas razões: (1) A fim de garantir a sobrevivência, a vítima adota a perspectiva do abusador, e esse acredita ter uma justificativa para abusá-la; (2) Se a vítima se culpa pelo ocorrido, ela então acredita que é capaz de cessar o abuso. Outra conseqüência dessa distorção é a de que a vítima gasta uma energia imensa para mudar ou “melhorar-se” a fim de que o abuso termine.
A Síndrome de Estocolmo Generalizada

A Síndrome de Estocolmo Generalizada resulta da ameaça, por parte de um ou mais indivíduos, à sobrevivência física ou psíquica da vítima, seguida da demonstração de gentilezas por outros indivíduos que são vistos como similares em alguns aspectos aos indivíduos ameaçadores.
Baseando-se na lei da generalização do estímulo, identificamos três situações nas quais a Síndrome de Estocolmo Generalizada pode se desenvolver: (1) Ameaças de violência contra a vítima são feitas por uma pessoa, e então gentilezas são demonstradas à vítima por outra pessoa que se assemelha de alguma forma à pessoa violenta. A vítima desenvolverá a Síndrome de Estocolmo Generalizada em relação à pessoa que demonstrou gentilezas. (2) Ameaças de violência contra um grupo de pessoas são feitas por outro grupo de pessoas, e então gentilezas são demonstradas a um dos membros do grupo vitimado por um ou mais indivíduos do grupo violento. Como resultado, esse membro do grupo vitimizado desenvolverá a Síndrome de Estocolmo Generalizada em relação a um ou mais indivíduos gentis do grupo violento. (3) Ameaças de violência contra um grupo de pessoas são feitas por outro grupo de pessoas, e quase todos os membros do grupo violento também demonstram algum tipo de gentileza a praticamente todos ou todos os membros do grupo vitimizado. Como resultado, espera-se que membros do grupo vitimizado desenvolvam a Síndrome de Estocolmo Generalizada em relação a todos os membros do grupo violento.
Enquanto que a Situação 1 pode ocorrer com qualquer um (qualquer pessoa pode ser seqüestrada na rua, por exemplo), as Situações 2 e 3 podem apenas ocorrer com membros de um grupo oprimido. A Síndrome de Estocolmo será mais intensa quando as Situações 1, 2 e 3 acontecerem simultaneamente.
Todas as relações de opressão e de poder desiguais precisam, no final das contas, basear-se na ameaça ou realidade de violência para se manter, e, acima de tudo, da sua naturalização e negação da potencialidade ameaçadora.
A história e realidade das mulheres ao redor do mundo não deixam dúvidas de que os homens são capazes de matar mulheres, de usar violência para controlá-las socialmente, e que os homens utilizarão os motivos mais banais para racionalizar suas violências.
Violências e Ameaças de Violência às Mulheres

Assédios
O termo “assédio sexual” é utilizado para referir a comportamentos masculinos que ocorrem em locais diferentes, mas que possuem funções semelhantes.
O assédio sexual no ambiente de trabalho pode ser definido como um comportamento masculino não-solicitado e não-recíproco que reforça o papel sexual de uma mulher sobre sua função como trabalhadora. Os comportamentos de assédio incluem: olhar insistentemente, fazer comentários a respeito ou tocar o corpo de uma mulher; solicitar o consentimento para comportamento sexual; propostas não-recíprocas reincidentes para encontros; exigência de intercurso sexual; e estupro (note que o assediador age a partir da suposição de que o corpo de uma mulher pertence a ele, não a ela). O que torna essa forma de assédio especialmente perversa é o fato de que é sustentada por um abuso de poder ou pela ameaça do mesmo, caso a mulher se recuse. Podemos identificar algumas “punições” utilizadas pelos homens que ajudam a garantir a complacência da mulher: difamação verbal da mulher; a não-cooperação da parte de colegas homens; avaliações de desempenho negativas; recusa de hora-extra; mudança de cargo prejudical; transferências ou troca de turnos, horas ou local de trabalho prejudiciais; recusa de treinamento; padrões de performance impraticáveis ou demissão.
Pesquisando em diversas fontes, Russell (1984) identificou as funções do assédio sexual, que incluem:
· A manutenção da prerrogativa masculina tradicional da iniciativa sexual.
· A expressão da hostilidade masculina em relação às mulheres.
· A compensação de homens pela impotência em suas próprias vidas através de controle sobre uma mulher.
· Afirmação do papel sexual da mulher sobre suas outras funções, e, através disso, a manutenção das mulheres em posição subordinada.
· A limitação do acesso das mulheres a cargos específicos, especialmente aqueles que não são “tradicionalmente” femininos.
Outra função do assédio é sexualizar a interação, comunicando às mulheres que somos, principalmente e antes de tudo, objetos para a satisfação sexual dos homens.
As funções acima mencionadas também se aplicam a locais que não os do ambiente de trabalho. O assediador na rua, por exemplo, comunica à mulher que as ruas pertencem a ele, não a ela; que ela não é livre para ir aonde bem entender e quando quiser; que se ela agir como se fosse livre, ele irá provar que a rua é sua ao abusar dela sexualmente. E, mesmo que o assédio não seja acompanhado de agressão física, “cantadas” são definidas como “agressões menores” (Bernard and Schlaffer 1983) e “pequenos estupros” (Medea and Thompson 1974).
Se uma mulher se dispusesse a tomar nota de todas as violências verbais direcionadas a ela durante sua vida – na forma de propagandas degradantes; piadas e insinuações depreciativas; exposição a conteúdo pornográfico; cantadas; comentários sexuais de homens conhecidos e colegas de trabalho; ligações telefônicas obscenas, etc. – ela ficaria surpresa com a quantidade de violência masculina “normal” que absorveu até mesmo sem sequer ser tocada fisicamente.
O Contínuo de Violências
O conceito de um contínuo de violências ritualizadas revela que a violência é uma realidade na vida de cada mulher. No entanto, as formas de violência mais freqüentes não são conceitualizadas como violentas, ou mesmo abusivas ou não-usuais pela maioria das mulheres. Infelizmente, elas são vistas como comportamentos masculinos normais, o que sugere que as mulheres conviveram por tanto tempo com a violência masculina que ela se tornou “imperceptível”. Todas as relações entre homens e mulheres são abusivas, algumas mais e outras menos. O conceito do contínuo insere essas formas de violência cotidianas em um contexto.
Conclusões acerca do contínuo de violência também corroboram a análise de MacKinnon das razões pelas quais estupradores raramente são condenados pela justiça. MacKinnon aponta que, uma vez que o estupro é definido como o uso de uma força maior do que aquela observada no comportamento sexual “normal” do homem, e porque a intensidade dessa força comumente utilizada é considerável e não leva em conta o ponto no qual as mulheres começam a se sentir violadas, o modo como o estupro é definido o torna praticamente “inexistente”. É também importante notar que apenas 1% dos estupradores são presos, e apenas 1% dos que são presos são condenados. Aqueles condenados não permanecem muito tempo na prisão até serem soltos. Devemos igualmente destacar que todos os homens se beneficiam das conseqüências das violências e das ameaças de violência de outros homens.
Podemos também chegar a uma conclusão importante acerca da violência masculina “normalizada” através do seguinte caso: cartas recebidas por Ellen Goodman, em resposta aos esforços do presidente Clinton para cessar a discriminação contra gays no exército, sugerem que homens sentem-se aterrorizados pelos tipos de violência aos quais eles submetem mulheres no dia-a-dia. Essa variedade de homofobia – medo de homossexuais – é, na verdade, medo de se tornar objeto de atenção sexual indesejada. Aparentemente, a maioria dos homens que escreveram para Goodman achava assustador até mesmo imaginar serem tratados da mesma forma que os homens rotineiramente tratam as mulheres.
A Impossibilidade de Escapar
Utilizando seu poder para criar normas e instituições sociais, os homens tornam a libertação das mulheres muito difícil. A seguir, alguns exemplos de como isso ocorre:
· Deus é retratado como sendo um homem, onipotente e superior, provendo legitimização “divina” às relações hierárquicas.
· Nossa história é masculina, pois as vidas das mulheres foram apagadas de todas as representações oficiais, ou então reescritas a partir da perspectiva dos homens.
· A baixa renda das mulheres em relação à dos homens pressiona as mulheres a casar ou permanecer casadas, tendo como objetivo sua sobrevivência econômica.
· As mulheres são incentivadas a amar e cuidar de maridos, pais, avôs e a desejar e cuidar de filhos e netos homens.
· O padrão de uma mulher atraente é definido como ser pequena e magra (ou seja, fraca), e vestir-se de forma que não possa se proteger (por exemplo, usar salto alto).
· Mulheres são encorajadas pela mídia e “especialistas” a servir sexualmente aos homens, de forma que a satisfação dos desejos sexuais dos mesmos é apresentada como uma conquista e um “empoderamento”, que provê uma falsa ilusão de poder.
· Homens recebem muito mais incentivo para fortalecer seus corpos através do esporte.
· Lesbianismo é visto como uma perversão; a decisão de não manter relações sexuais com homens e/ou afastar-se deles em face de suas violências não é considerada uma opção legítima para as mulheres.
· Uma criança sem um pai é vista como ilegítima, um bastardo. A opinião pública é a de que uma mulher solteira não deve ter filhos, que crianças precisam de um pai.
· As idéias e sentimentos dos homens são ouvidos e respeitados. As idéias das mulheres são vistas como fúteis ou ignoradas.
· Homens invadem o espaço físico das mulheres, tocando seus corpos até mesmo quando não são convidados ou permitidos.
Esses exemplos revelam a extensão da impossibilidade de cada mulher de escapar da dominação masculina.
Até mesmo mulheres que sentem que estão em casamentos e namoros “igualitários” não escapam da dominação masculina. De fato, os homens retêm o controle até quando “permitem” que suas companheiras tenham mais liberdade (para trabalhar fora, por exemplo), ou quando as “ajudam” nas tarefas domésticas. Eles decidem quanta liberdade as mulheres podem ter e o quanto eles estão dispostos a dar.
Note-se que em troca de segurança física de terceiros e “liberdades”, a mulher deve se submeter sexualmente ao seu “protetor”, e, muitas vezes, ter e cuidar de seus filhos. O fato é que as mulheres pagam, e pagam caro, pelas pequenas “gentilezas” que recebem dos homens, inclusive a gentileza de protegê-las da violência de outros homens. Também se pode argumentar que o comportamento protetor dos homens em relação às mulheres é, na verdade, a proteção daquilo que entendem como sua propriedade.
“Gentilezas”

Paradoxalmente, em contraponto às violências citadas anteriormente, os homens também demonstram algumas gentilezas às mulheres, criando a esperança de que talvez eles se importem realmente com elas, e parem de abusá-las. Isso possibilita que a Síndrome de Estocolmo Generalizada se desenvolva nas mulheres.
Sendo assim, embora aparentemente irônico, os homens que insistem em abrir a porta para uma mulher são frequentemente os mesmos que acreditam que uma mulher não deveria ser considerada para um cargo “importante”, ou que o seu salário inferior pode ser justificado por sua “falta de perseverança”. Analogamente, é muito provável que o homem que se casa com uma mulher e a “protege” da violência de terceiros seja o mesmo que a espanca e/ou coage a submeter-se sexualmente a ele.

Porém, dentre as gentilezas demonstradas, talvez a mais valorizada pelas mulheres seja o afeto e o amor de um homem. Frye (1983) oferece uma perspectiva interessante acerca do amor dos homens: “Dizer que um homem é heterossexual implica somente que ele mantém relações sexuais [fode] exclusivamente com [ou submete sexualmente] o sexo oposto, ou seja, mulheres. Tudo ou quase tudo que é próprio do amor, a maioria dos homens hétero reservam exclusivamente para outros homens. As pessoas que eles admiram; respeitam; adoram e veneram; honram; quem eles imitam, idolatram e com quem criam vínculos mais profundos; a quem estão dispostos a ensinar e com quem estão dispostos a aprender; aqueles cujo respeito, admiração, reconhecimento, honra, reverência e amor eles desejam: estes são, em sua maioria esmagadora, outros homens. Em suas relações com mulheres, o que é visto como respeito é gentileza, generosidade ou paternalismo; o que é visto como honra é a colocação da mulher em uma redoma. Das mulheres eles querem devoção, servitude e sexo. A cultura heterossexual masculina é homoafetiva; ela cultiva o amor pelos homens.”

Como observado, sexo na cultura supremacista masculina se configura como um ato de hostilidade e dominação, e não amor. Se o “ser fodido” comunicasse algo positivo para e sobre o “fodido”, os homens provavelmente fariam desse ato uma exclusividade sua. Visto que a sexualidade é socialmente construída para homens a partir de sua posição de dominação, a sexualidade masculina assume comumente a forma da degradação, humilhação, controle e/ou inflição de sofrimento nas mulheres a fim de que os homens gozem, ou até mesmo para ter uma experiência erótica e sexual. De fato, propomos que o ápice da representação da subordinação da mulher e dominação do homem, e também um dos momentos nos quais o vínculo da mulher com seus abusadores se torna mais evidente, ocorre durante o ato sexual heterossexual.

Se prover serviços sexuais e reprodutivos aos homens aparentemente os “acalma”, as mulheres continuarão a provê-los na esperança [inconsciente] de que possibilitem a criação de um vínculo com eles, que poderia servir para evitar [ainda mais] violências.
Isolamento

Uma mulher exposta às idéias, opiniões, atitudes, sentimentos e necessidades dos homens (e filhos), ao ponto da exclusão às das mulheres, é uma mulher ideologicamente isolada. De fato, o sistema de idéias supremacista masculino é amplamente difundido através das várias religiões do mundo, da psicanálise, da pornografia, sexologia, ciência, medicina e ciências sociais. Vale notar que um grupo constituído somente de mulheres pode se reunir, mas seus membros ainda permanecem ideologicamente isoladas se elas se comunicarem umas com as outras expressando as perspectivas dos homens, e não suas próprias.
Similarmente, uma mulher que tenha pouco ou nenhum contato com outras mulheres está fisicamente isolada. Hite (1976) oferece uma perspectiva interessante acerca da imposição de proibições de contato físico entre mulheres: "É deprimente e alienante não ser 'permitido' tocar ou estar em contato físico a não ser com um parceiro sexual – porque isso pode "levar" à conexão sexual! Especificamente em relação às mulheres, essa proibição de contato físico é opressiva e tem o efeito de separar as mulheres. A dinâmica funciona mais ou menos assim: você pode sentir um impulso repentino de beijar ou abraçar uma amiga – ou sentir desejos súbitos de maior proximidade ou contatos indeterminados – que precisa abafar ou reprimir. Mas quando um impulso natural é freado ou não é reconhecido conscientemente, pode provocar sensações de conflito, culpa ou ansiedade. A repressão pode então levar a sentimentos semiconscientes de rejeição, engendrando sentimentos de desconfiança e desgosto pela pessoa por quem se sentia originalmente atraída. Claro que isso é um fenômeno psicológico, e comumente se dá entre amigos, num nível sutil. O caso é que essa proibição de troca de contato físico (de qualquer tipo) entre mulheres leva ao crescimento do nível de hostilidade e distância entre elas."
Note-se que, uma vez que os homens ameaçam as mulheres com violências porque são mulheres, isto é, porque possuem corpos femininos, muitas mulheres depreciam seus próprios corpos e de outras mulheres, algumas delas ao ponto de odiá-los. Isso acaba por agravar ainda mais o isolamento entre as mulheres.
Resistência

É interessante notar que sintomas do que pode ser definido como reação pós-traumática têm sido repetidamente observados em mulheres como um grupo: sintomas físicos e psicossomáticos de outra forma inexplicáveis; comportamento dependente; sentimentos de desamparo e impotência; depressão; surtos raivosos ocasionais e aparentemente ilógicos; ambivalência nas relações com homens; e baixa auto-estima. Entendemos esses sinais como manifestações de desespero e protestos que seriam rechaçados caso fossem expressos em palavras.
De fato, a cultura masculina assegura que a expressão da raiva das mulheres não seja levada a sério – de forma que essa raiva não culmine em mudanças sociais – ao definir que a raiva nas mulheres é patológica.
Como feministas, estamos acostumadas a diversas e constantes acusações e ao fenômeno backlash devido a nossos pensamentos, questionamentos e ações. Dworkin (1985) oferece uma observação pungente: “O feminismo é odiado porque mulheres são odiadas. O anti-feminismo é uma expressão direta de misoginia; é a defesa política do ódio às mulheres. Isso se dá porque o feminismo é o movimento de libertação das mulheres.”
O movimento feminista proporciona às mulheres um contexto que legitimiza falar das violências em nossas vidas previamente invisibilizadas – o incesto, estupro, espancamento e assédio que moldam nossos dias. Revelar a natureza pervasiva dessas violências expõe a falsidade dos mitos patriarcais de que tais incidentes são isolados; cometidos apenas por alguns homens doentes; de que são apenas fantasias de mulheres delirantes, histéricas ou loucas; ou então de que são fantasias originárias dos desejos latentes das mulheres.
Como poderia ser esperado, precisamente ao manifestarmos nossa ética feminista, passamos a ouvir sobre a importância da tolerância. É preciso compreender que, quando as pessoas começam a falar sobre a importância da tolerância, altruísmo e auto-sacrifício, isso indica que elas percebem um conflito inerente de interesses entre os envolvidos. Dessa forma, a fim de resolver esse conflito, espera-se que aqueles que não possuem poder institucional sejam altruístas. Nesse sentido, o altruísmo e o auto-sacrifício são considerados “virtudes femininas”. A “feminilidade” é um conceito que faz a submissão feminina à dominação masculina parecer algo natural e normal. Assim sendo, as “virtudes femininas” possuem a função de preservar a relação de dominação e subordinação, facilitando o acesso daqueles que possuem poder institucional aos recursos daqueles que não o possuem. Ao repudiarmos a “feminilidade” ao mesmo tempo que retemos nossa identidade como mulheres, estamos rompendo com as normas culturais de subordinação feminina.
Uma tática patriarcal para silenciar uma mulher que se pronuncia é a de chamá-la de “femista”, lésbica ou feminista. Na concepção patriarcal, essas três alcunhas são “sinônimas” – todas se referem a mulheres que não dedicam suas vidas a apoiar e suprir as vontades dos homens.
Quanto ao termo “lésbica”: por que ele possui tanto poder? As lésbicas não priorizam as vontades dos homens. Às mulheres que não colocam os homens em primeiro lugar não são dadas as recompensas recebidas por mulheres que se “aliam” aos homens, incluindo alguma proteção da violência de todos eles. As mulheres sabem, consciente ou inconscientemente, que os homens utilizarão seu poder para ensinar às mulheres, com força bruta se necessário, a colocar os homens em primeiro lugar.
Conclusão

Nós apresentamos todas essas observações a fim de que as leitoras possam determinar por si próprias se os homens como um grupo demonstram verdadeiro amor às mulheres. Senhores “gentis” de escravos podem ter tornado a escravidão relativamente mais suportável para os escravos, porém isso não fez da instituição da escravidão algo menos hediondo. Também não acreditamos que, sob condições de dominação masculina, o conceito do “consentimento” feminino em relações desiguais seja significativo.

O conceito da Síndrome de Estocolmo Social nos permite romper com prévias conceitualizações acerca do amor das mulheres pelos homens ao explicar por que a maioria das mulheres sacrifica tanto de si própria nos relacionamentos com homens.
Se a necessidade das mulheres de criar vínculos com os homens surge das violências e ameaças de violência masculinas, parece-nos altamente questionável que essa necessidade, “desesperada” e obsessiva como ela se configura nas relações de mulheres com homens, estaria presente dentro de uma cultura igualitária e não-violenta. Em uma cultura assim, as mulheres não buscariam por vínculos a qualquer preço. Propomos, então, que a necessidade que mulheres sentem de criar vínculos com homens é fruto das ameaças de violência e violências dos homens vivenciadas pelas mulheres na sociedade supremacista masculina.
Paradoxalmente, embora as mulheres “amem” os homens em uma tentativa de sobreviver, através de sua dedicação aos homens, elas lhes proporcionam serviços (domésticos, emocionais, reprodutivos e sexuais) que lhes permitem perpetuar nossa opressão. As mulheres em geral se apegam ao sonho de que os homens se importam conosco e irão nos proteger de violências – esquecendo de quem partem – até mesmo enquanto nos oprimem.

Quanto mais vozes femininas se erguerem confirmando as violências dos homens, menos isoladas se sentirão as vítimas, e mais difícil será a minimização do problema pelo patriarcado. Da mesma forma, à medida que as mulheres, ao criarem vínculos entre si, receberem umas das outras o amor, a afirmação e a consideração necessários a qualquer ser humano, elas se tornarão cada vez menos dependentes das pequenas “gentilezas” dos homens para que sintam que possuem valor.
Temos a convicção de que as mulheres cessarão de amar os homens simplesmente para sobreviver; e, ao invés disso, buscarão o crescimento em conjunto através do amor – amor por elas mesmas e por outras mulheres. A proposta feminista lésbica da criação de igualdade no mundo privado do sexo e relacionamentos baseado no entendimento de que o pessoal é político pode ser a base da criação de um mundo público saudável no qual as mulheres podem viver. Acreditamos que esta seja a vanguarda da mudança social radical.

------

Baseado e adaptado a partir de Loving to Survive: Sexual Terror, Men's Violence, and Women's Lives - 
Dee L.R. Graham


21 comentários:

  1. Este comentário foi removido por um administrador do blog.

    ResponderExcluir
  2. Este comentário foi removido por um administrador do blog.

    ResponderExcluir
  3. Este comentário foi removido por um administrador do blog.

    ResponderExcluir
  4. Este comentário foi removido por um administrador do blog.

    ResponderExcluir
  5. Este comentário foi removido por um administrador do blog.

    ResponderExcluir
  6. Este comentário foi removido por um administrador do blog.

    ResponderExcluir
  7. Este comentário foi removido por um administrador do blog.

    ResponderExcluir
  8. Este comentário foi removido por um administrador do blog.

    ResponderExcluir
  9. Este comentário foi removido por um administrador do blog.

    ResponderExcluir
  10. Este comentário foi removido por um administrador do blog.

    ResponderExcluir
  11. Este comentário foi removido por um administrador do blog.

    ResponderExcluir
  12. Este comentário foi removido por um administrador do blog.

    ResponderExcluir
  13. Este comentário foi removido por um administrador do blog.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Este comentário foi removido por um administrador do blog.

      Excluir
  14. Este comentário foi removido por um administrador do blog.

    ResponderExcluir
  15. Este comentário foi removido por um administrador do blog.

    ResponderExcluir
  16. Este comentário foi removido por um administrador do blog.

    ResponderExcluir
  17. Este comentário foi removido por um administrador do blog.

    ResponderExcluir
  18. Parabéns pela proposta do blog! Também tenho um que, vez ou outra, insiro a questão do feminismo como atitude prospectiva e um processo psíquico e social de emancipação humana. Estava pesquisando a Síndrome de Estocolmo em mulheres vítimas de abuso. Este texto é bastante esclarecedor e alerta para pontos sensíveis de nosso atavismo cultural. Só não concordo com a sugestão na introdução do artigo, de que mulheres insistem em sua heteroafetividade quando poderiam resolver-se com pessoas do mesmo gênero. Não creio que a coisa toda seja tão simplista e meramente questão de escolha. Por outro lado, como o modus operandi masculino é largamente conhecido nos desencoraja de muitos flertes ou possibilidades por julgarmos NÃO VALER À PENA. Quando calculamos honestamente o ônus de manter um relacionamento com um homem em face de algum benefício partilhado, seja ele qual for, sexual, afetivo, moral, financeiro etc, é DESENCORAJADOR. Eu me separei há mais de dois anos e a experiência foi agradável o suficiente para manter-me segura no muro da solteirice. Estar sozinha parece-me mais conciliável em não ter ameaçada a minha esfera de liberdade. Irei recomendar seu texto em rede social. É uma discussão sempre atualizada.

    ResponderExcluir
  19. Blog com conteúdo de excelente qualidade, não sei porque parou de escrever, mas de qualquer forma obrigada.

    ResponderExcluir